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Caracterizar é uma habilidade que pode ser útil, e talvez até mais que o descrever em imagens. Enquanto no descrever em imagens você desenvolve interesse por situações e o que nelas acontece, no caracterizar você procura descobrir o característico, o tipicamente próprio de uma situação ou de um objeto.

Como você caracteriza uma árvore, por exemplo? Você pode gostar de árvores ou não, achar que elas são úteis, decorativas, etc. Você pode achar que um ipê é mais bonito que um flamboyant, mas isso diz muito mais sobre você mesmo, do que sobre a árvore. Você pode também observar a árvore factualmente e descrevê-la em imagens, mas quando você caracteriza você vai um passo além.

Ao observar, por exemplo, um ipê e um flamboyant como árvores adultas e isoladas, o que chama a atenção é que cada uma destas tem um caráter bem diferente. Ao tentar expressar em palavras algo deste caráter específico destas duas árvores, podemos talvez chegar às seguintes características.

O Ipê

Ereto no céu

Uma presença marcante

Intensamente colorido

O Flamboyant

Reverência para a terra

Abrigando

Brincando laranja com verde

Caracterizar é algo pessoal. Por isso, nem sempre todo mundo irá reconhecer imediatamente o que nós caracterizamos de uma árvore. Em princípio isso deve ser possível, porque o característico, o específico está ligado àquilo que você observa, portanto, pode ser encontrado pelos outros também. Isso acontece mais à medida que você domina, como habilidade, o caracterizar, e assim, puder acertar melhor o que você vê. O que você vê no ipê e no flamboyant?

No Ipê olhamos para um tronco quase todo reto e ‘elegante’, com casca levemente rachada, sem cortes. Olhamos o formato das folhas ovaladas de um verde escuro, em leque nos galhos, que se desdobram em outros cada vez menores. A copa da árvore aponta para cima e se destaca com o céu azul. Uma vez por ano, observamos que ela perde todas as folhas e forma um todo colorido amarelo, rosa, branco que se contrasta contra o céu azul.

No Flamboyant olhamos para um tronco robusto que deixa a formação de raízes à mostra. É mais ‘troncudo’ se dividindo em galhos fortes e tem uma casca mais lisa e de cor opaca. As folhas são pequenas e formam leques ao longo dos galhos; o vento brinca com elas. As flores se misturam com as folhas sensíveis e transparentes. A copa é uma cúpula; nas extremidades os galhos se inclinam para o chão. Ela oferece um espaço coberto e refrescante do sol. Ela gosta de estar sozinha para mostrar a sua majestade.

Caracterizar uma imagem ou uma história

Ao lado da descrição em imagens, o caracterizar é uma atividade que aparece muitas vezes neste livro. Uma pessoa conta a sua história, a outra caracteriza e ajuda quem contou a encontrar aspectos característicos da sua história. Por exemplo: a descrição em imagem feito anteriormente neste livro de um jovem professor que entra na sala dos docentes durante o intervalo. Quem descreveu recebeu entre outros as seguintes características:

– Sobre a situação: insegurança e também segurança; desafio e também tranquilidade

– Sobre a sua posição: no meio, mais para o lado de ficar quieto.

Principalmente este último o surpreendeu. Ele mesmo se via como uma pessoa empreendedora, que ia atrás do desafio. ‘Além disso’, ele disse numa reação espontânea, ‘Rob mudou mais para a esquerda, e assim, eu só podia sentar naquele lado’.

Uma só situação, o que isso pode mostrar? Se não refletir um pouco mais, de fato nada mostra. Por outro lado, se você se perguntar o que este acontecimento aparentemente aleatório significa, você pode descobrir o que é característico para você. Neste caso foi assim: quem contou sua história descobriu que ele de fato buscava o desafio, mas que se deixava inativo pela insegurança que surgia simultaneamente. Ele se sentia confortável com tranquilidade e segurança, mas ao mesmo tempo sentia que queria escapar do tédio que vinha junto com isso. Ao se tornar consciente deste dilema, a ‘grandeza’ de ser empreendedor e buscar desafios perdeu sua importância. O que ele pensava antes que ele era, agora podia se tornar um objetivo realista para o seu próprio desenvolvimento.

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Caracterizar também é claramente uma atividade individual. A cada pessoa algo diferente chama a atenção na história descrita. Nesse sentido é subjetivo, quer dizer ligado à pessoa, mas ao mesmo tempo é um exercício de objetividade. O observador tenta – através dos seus próprios óculos – ver e expressar o que se destaca na imagem da história. Estas características encontradas podem ser muito diversas, mas também podem ser iguais ou apontar numa mesma direção.

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Procedimento

As principais regras do caracterizar são:

– Fique com a história, com a imagem que foi apresentada.

– Não projete a característica na pessoa que contou a história e não diga: ‘Você é ….’, ou ‘É típico de você ….’ etc. Claro, é possível dizer algo sobre quem conta a respeito do seu contar ou como ator na sua própria história. Por exemplo: ‘Me chama a atenção que você nesta situação ….’

– Nomeie o que é mais marcante. Procure formular em frases curtas, com a qualidade de um título de um livro ou filme. Mesmo se não conseguir, vale a pena tentar.

– Não dirija sua atenção para a habilidade de quem conta; não importa quão bonita a obra é, ou com que modo cativante ou humorístico a história foi contada.

– Não entre em discussão entre si sobre a ‘validade’ da caracterização feita. O que pode é checar se é uma caracterização e não um julgamento, por exemplo.

– Deixe quem descreve a cena livre para acolher ou não uma característica, ou usá-la para pesquisar mais.

Resumindo

Caracterizar começa com um perceber aberto. A imagem que você vê, a história que é contada, você acolhe como ela é. Você a deixa entrar em você, como se fosse o ar que você inspira. Depois você traz a imagem para dentro de si e a deixa passar mais uma vez. Com isso você evita seu próprio julgamento como ‘bonito’, ‘feio’, ‘concordo’, ‘não concordo’. Então acontece uma virada. Você percebe que você reage com o seu sentimento sobre determinados aspectos; você sente – por assim dizer – ‘Olhe, isso é marcante’ ou: ‘O que está acontecendo aqui?’. A sua atenção se deslocou do mundo externo, para o que você vivencia internamente. Essa é a virada.

Em seguida você tenta verbalizar a sua vivência. Você se move, procurando da vivência para a imagem e novamente de volta. Com palavras você vai checando a conexão. A característica que você encontra dessa maneira e as palavras com que você a expressa, dizem algo a respeito de você e também sobre o objeto fora de você. Isso é um ponto importante. Caracterizar não é apenas um acontecimento puramente subjetivo. É como degustar vinho. O experiente provador de vinho distingue e nomeia qualidades reais. Ele olha, cheira, tome um gole e degusta, e depois ele engole o vinho e sente também o gosto posterior. Na essência é o mesmo processo que caracterizar uma árvore, uma história, ou uma imagem num papel.

Este diferenciar e nomear, é uma atividade do ‘eu’ ou do ‘self’. O ‘eu’ percebe, se desprende do julgar como ‘gostoso’, ‘mau’, etc. e nomeia o caráter próprio do vinho. Essa atividade do eu requer um esforço consciente.

De “Ondernemen in de Levensloop” de Jos van der Brug e Kees Locher. – p.41 – 45
ISBN-13: 978-9060384367
Tradução: Hermanus J Meijerink

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