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Estando na posição de um consultor que trabalha com a Liderança Horizontal e sendo um médico atuante, os temas gestão e uma questão mundial de saúde, a pandemia do COVID-19, são terrenos que me permitem navegar olhando para ambos os lados. Sobre o termo liderança, nesse momento tão difícil do planeta, parafraseio Adriaan Beckman, que aponta que toda a profundidade que Peter Drucker trouxe à administração também trouxe uma ausência de discernimento, que é misturar administração e liderança como se fossem a mesma coisa.

Ambas sólidas e necessárias, elas são de âmbitos e perspectivas diferentes. Sob essa condição, a posição do líder é aquela que exerce diversos olhares, diversas análises, diversas roupagens para as situações mais diferentes.

A pandemia trouxe para muitas organizações a imposição do trabalhar via online. Muitas vinham caminhando e tateando esse processo de maneira lenta e abruptamente foi implantado devido à imposição externa. E já colheram resultados favoráveis. Muitas empresas foram obrigadas a colocar isso de maneira rápida e tiveram que criar novos processos e fazer um caminho adaptativo com novas descobertas. E tenho estado atento e acompanhado sobre o impacto dessa nova realidade em relação à questão da produtividade no trabalho Home Office.

Tenho observado de perto e colhi relatos de que a produtividade se mantém igual. Tenho captado também as dificuldades de muitos que mostram aumento de demandas e maior estresse. E isso já é uma realidade médica. De médio a longo prazo, veremos como ficará a produtividade. É cedo para falar do resultado em geral. Cabe à liderança ficar atenta aos sinais que forem aparecendo.

As organizações também podem incorrer no erro que é querer passar o que for “possível” para o trabalho online. Nem tudo será permitido pela natural condição humana. Logo que se abriram as portas do isolamento social, a população tendeu a superlotar os espaços, como se fazia sempre. Antes de criticar as pessoas que vão em busca de aglomerações, minha leitura é que nós, seres humanos, gostamos de gente, somos sociáveis. A intensificação ou limitação apenas ao Home Office deve aumentar a solidão das pessoas e impactar sua saúde – e consequentemente afetará os resultados.

Há um detalhe importante numa reunião feita por uma tela de um computador ou similar. A gente não olha para os olhos das pessoas. E a comunicação humana é definida principalmente pelo movimento dos olhos. Assim, uma reunião feita pelo computador é, por si só, distante, e dessa maneira, formal. Isso afasta ainda mais as pessoas e a liderança precisa levar em consideração esse distanciamento e quais as implicações que isso levará, se for implantado de maneira unilateral.

Em relação à questão da produtividade, trabalhar somente em frente ao computador é bastante desgastante. Aumentar a carga horária nessa esfera é sobrecarregar as pessoas. As conseqüências na saúde de todos que forem afetados por isso se mostrará no futuro. Agora que a pandemia está declinando e as organizações estão revisando e refletindo nos próximos passos, você, líder, pode pensar: como se pode equilibrar tudo isso?

Como aprendizado do pósCovid-19, refletimos o quanto uma boa liderança está relacionada ao exercício de bons processos – e chovendo no molhado, ter um fundo de reserva com liquidez que permita atravessar a época de vacas magras. Toda essa crise trará elementos forçosos: empresas que não vinham bem já morreram ou estão agonizando. A criatividade, esta meta tão famosa e buscada, está intrinsecamente ligada àqueles momentos “soltos, ou desorganizados, ou informais” que estão fora do terreno da regrada normalidade, enquanto rotina.

Tive uma experiência interessante ao visitar uma Aceleradora: as pessoas preferiam trabalhar na área de convivência, informal, barulhenta, do que em seus espaços pessoais. Elas estavam em busca de inspirações, que comumente ocorrem quando as pessoas se encontram, informalmente. Então, em teoria, trabalhar em Home Office significa diminuição da interação e da criatividade…

E voltando então à crise, ela estimulará que todos se rearranjem: o futuro nos chama. E a consequência é que muita criatividade vai surgir. Quer queiramos ou não. E aí veremos o quanto o trabalho online vai se tornar realidade.

Cara leitora, caro leitor, estou aqui me permitindo exercer uma brincadeira de futurologia, baseada naquilo que é o ser humano: o online será algo complementar ao presencial. A liderança, sensata, vai dosar o quanto para quem, por qual ritmo. Assim, novos processos nascerão a partir dessa dolorosa experiência que estamos passando. E assim descortina-se o horizonte para o futuro, na vivência de que as crises desmontam zonas de acomodações, matam os mortos-vivos que teimavam viver, escancaram a tendência de algumas organizações de só repetirem o que ficou velho, desnudando assim a questão da gestão de mudança.

Falar em mudança é falar de liderança. A gente está sempre mudando, o mundo está sempre mudando. E como é que você lida com a mudança? Como você a gere? Comparando o desenvolvimento tecnológico que havia décadas atrás para o momento, vemos que temos um mundo em que as implantações tecnológicas são muito rápidas. E mudanças tecnológicas preponderantes impõem mudanças culturais. Se elas se trocam com muita frequência, temos que aprender a viver no mundo que é o da plena incerteza. Portanto, todo e qualquer pensamento estratégico atual necessitará ser para curto prazo. Essa é a nossa vida contemporânea: a plena instabilidade. Assim, sobrevive aos tempos atuais quem tem capacidade de ler o mundo e mudar rapidamente seus processos. Adaptabilidade e agilidade se transformam em solidez. Então, necessárias competências atuais.

Paulo Neves Júnior
Outubro de 2020

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