Admiro a criatividade do Adriaan Bekman e como ele constantemente busca expressar o que pesquisa de diversas formas: artigos, livros, imagem, música ou movimento. O tema central que sempre volta é o que ele chama: “a alma do ser humano”. Trata de como damos forma à nossa vida e como nos desenvolvemos – algo que acontece essencialmente com e através de outras pessoas.

Adriaan está terminando um novo livro, desta vez, uma obra maior em que ele procura mostrar como ao longo dos últimos 2500 anos a “Alma Humana” se expressa, se desenvolveu e quais os desafios fundamentais para a sua tarefa de levar a humanidade a um novo patamar de existência. Ele faz isso expressando os seus próprios pontos de vista e relacionando-os com o pensamento de uma seleção de filósofos que tiveram grande influência ao longo desse período.

Um dos pensadores escolhido por Adriaan é Viktor E. Frankl, psicólogo judeu que passou pela experiência do Campo de Concentração no regime Nazista de Adolf Hitler, na Alemanha. Quero trazer aqui uma parte que muito me tocou: 

Viktor E. Frankl: apesar de tudo, dizer “sim” à vida.

Um psicólogo vivencia o campo de concentração.

 

Viktor E. Frankl direciona-se para a questão da liberdade. O ser humano é um ser livre ou é necessariamente pré-determinado? No campo de concentração, essa pergunta se tornou uma experiência existencial.

A liberdade interior.

O ser humano de fato não passa de um resultado aleatório da sua constituição física, da sua disposição caracterológica e da sua situação do ambiente social? Ele “sob a opressão das relações” que reinava nas relações de vida lá no campo, “não podia ser/fazer diferente”?
Com base na minha experiência, o ser humano pode sim “também ser/fazer diferente”. Portanto, também nessa situação aparentemente de total opressão, um resquício de liberdade espiritual, de uma atitude livre do “eu” frente ao mundo externo, pode continuar, tanto externa como internamente. (107)

Frankl expressa de forma clara:

É possível privar a pessoa de tudo no campo de concentração, somente não se pode tirar dela: a liberdade humana última, de se posicionar desta ou de outra maneira diante das circunstâncias dadas. Havia um “desta ou de outra maneira”. (108)

O ser humano é capaz de manter sua liberdade e moralidade sob todas as circunstâncias.

A liberdade espiritual do ser humano, que não lhe pode ser tirado até o seu último suspiro, permite que ele também possa ainda encontrar a oportunidade, até o seu último suspiro, de moldar e dar sentido à sua vida. (109)

Queremos muito banir o sofrimento da nossa vida. Mas podemos nos colocar a pergunta se sofrimento não tem a ver, por excelência, com “atribuir um sentido”.

Como seres humanos, somos capazes até o momento da nossa morte de dar sentido à nossa vida. Dar sentido e liberdade são intrinsecamente ligados entre si.

Até o último momento da vida existe uma multiplicidade de possibilidades a dar forma à vida plena de sentido. (110)

A partir da sua experiência desumana, Frankl desenvolveu uma visão firme, que: se você na vida não der pessoalmente forma a esta liberdade e criar sentido, a vida interior gradualmente ficará destruída.

Uma pessoa que não é capaz de visualizar o fim de uma forma de existência, também não é capaz de viver com um objetivo diante de seus olhos. Ele não será mais capaz, como um ser humano sob circunstâncias normais, de existir com os olhos voltados para o futuro. Por causa disso muda toda a estrutura da sua vida interior. Acaba levando a sintomas de decadência interior, como já os conhecemos de outros campos da vida.

A perspectiva de um futuro, o efeito de se ter um objetivo, se traduz em outra vivência do tempo. A vivência do tempo corresponde com a vivência de sentido. Por isso Frankl pode dizer:

No campo, um dia demora mais que uma semana. Tão paradoxal foi esta vivência do tempo. (116)
É, portanto, próprio do ser humano poder existir verdadeiramente apenas sob o ângulo de vista de um futuro, portanto mais ou menos “sub specie aeternitatis” (sob perspectiva da eternidade). (119)

O que é necessário para isso, é uma reviravolta na pergunta inteira pelo sentido da vida. Devemos aprender, e ensinar às pessoas desesperançadas, que na verdade em nenhum momento a questão é o que podemos esperar da vida, mas muito mais: “o que a vida espera de nós“. (125)
Cada “eu” aterrissou em uma alma, cada vida humana se diferencia da vida de outro ser humano, cada um precisa dar forma à sua vida e dar sentido para que seja uma vida formada e plena de sentido. É preciso colocar a pergunta do que a vida está pedindo de você. É isso que Frankl extrai da sua pesquisa como conselho importante.

No cerne, viver significa nada mais que carregar responsabilidade por dar uma resposta adequada às perguntas da vida, realizar as tarefas que são colocadas a cada um de nós, para cumprir a demanda da hora atual... portanto, nunca o sentido da vida pode ser indicado de modo generalizado, nunca a pergunta para saber o sentido pode ser respondida de forma generalizada.... nenhum ser humano com seu destino pode ser comparado com um outro: nenhuma situação se repete. E em cada situação o ser humano é chamado para se relacionar de maneira diferente. (125)
Podemos nos orientar nesta aventura de vida responsável, principalmente em como outras pessoas atuam e não com o que é falado a respeito.
Não tem dúvida que Frankl viu o ser humano!

Temos tomado conhecimento do ser humano, melhor talvez que nenhuma outra geração antes de nós. O que, portanto, é o ser humano? Ele é um ser que sempre decide por si, o que ele é. Ele é o ser que inventou a câmera de gás; mas ao mesmo tempo ele é o ser, que de corpo ereto e com uma oração nos lábios, entrava na câmera de gás. (139)
Da mesma forma que encontramos com Frankl, a partir da sua experiência no campo de concentração, o ser individual do ser humano, encontramos a liberdade, também depois que ele refletiu uma vida inteira sobre essa experiência e a compreendeu.

Adriaan Bekman: A filosofia da vida organizada.

Tradução: Hermanus J. Meijerink.

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