Quando resolvi fazer o curso de Economia na PUC de Campinas eu tinha uma expectativa de poder entender a fundo a Economia, tanto macro como micro. O “entender” incluía para mim a pergunta: “O que é a Economia?”, “O que ela é na sua essência?”, “Para que ela existe?”. Mas o curso não me trouxe quase nada nesse sentido: tivemos um semestre de História do Pensamento Econômico, que trouxe os grandes economistas desde o século XVIII, todos alinhados com o pensamento econômico em vigor. O curso em si, durante 4 anos, trazia basicamente o funcionamento da economia: como a economia funciona, as suas leis e suas dinâmicas. Por exemplo, a lei da oferta e procura e a “mão invisível” que naturalmente restabelece equilíbrio com base nessa lei. A falta de oferta leva a aumento dos preços dos produtos, que por sua vez é um incentivo para produzir mais, restabelecendo a oferta num patamar mais alto e, consequentemente, os preços voltam a um patamar equilibrado.

Mais tarde, tive a oportunidade de encontrar alguns pensadores que falavam da essência da economia e questionavam o que era tido como “certo” como referência para empresas, países e para o mundo.
Assim, entre outros, li o “Economia Viva” de Rudolf Steiner junto com colegas, ouvi uma palestra do Manfred Max-Neef sobre as necessidades básicas do ser humano como objetivo da economia, li na biografia de Gandhi seus pensamentos de uma comunidade que busca o bem-estar dos seus integrantes, ouvi do país Butão que tem como medidor de desenvolvimento, em vez do PIB, o grau de felicidade dos seus moradores.

Ultimamente aumentou fortemente o meu questionamento do “sistema econômico” que está orientando o desenvolvimento no mundo, nos países, nas empresas. A regra de “sem crescimento não há desenvolvimento (que é igual a emprego, renda, bem-estar etc.)” colide diretamente com o que observamos na Terra como fornecedor de recursos: está mais do que provado que estamos numa rota impossível e insustentável. Ultimamente a atenção para esta realidade tem aumentado muito, tanto no mundo científico, como num mundo político, na sociedade civil e opinião pública em geral. Mas é curioso: as premissas do modelo econômico não mudaram! Parece que todos nós sabemos da gravidade e do desastre que estamos criando, mas ninguém sabe um modelo alternativo para substituir o modelo econômico atual. Ainda tem um agravante: a mudança tem que ser sistêmica e feita por todos, porque uma tentativa individual vai se confrontar com o modelo reinante que o coloca em desvantagem a ponto de inviabilizar a mudança.

Na semana passada, meu amigo Mário Kossatz me enviou um vídeo com Kate Raworth, uma economista inglesa. No vídeo ela me inspirou muito pela lucidez e coerência do seu pensamento. Ela mostra como estamos presos no modo de pensar e nos modelos e imagens da economia. Não conseguimos nos libertar e chegar a um modo de pensar e a modelos que permitam uma mudança que seja coerente com tudo que já estamos carecas de saber. Na sua fala e no seu livro, ela propõe sete novas maneiras de pensar como um economista do século XXI, radicalmente diferente de como um economista do século XX (e até hoje ainda) está pensando.
Ela diz
…. sete maneiras de pensar como um economista do século XXI, revelando em cada uma delas a imagem espúria que ocupou nossa mente, como ela veio a se tornar tão poderosa e a influência perniciosa que teve. Mas o tempo da mera critica já́ passou, e é por isso que o foco aqui é a criação de novas imagens, que capturem os princípios essenciais para nos guiar a partir de agora. Os diagramas neste livro objetivam resumir esse salto do velho para o novo pensar econômico. Em conjunto, eles estabelecem – literalmente – um novo quadro geral para o economista do século XXI.

O primeiro ponto que ela traz diz respeito ao Objetivo da Economia. Ela coloca a pergunta: “O que a economia deve ter como resultado final? Para quê a economia deve servir?” Essa pergunta é revolucionária! O atual modelo econômico traz como principal objetivo: Crescimento! Em todos os discursos se fala do crescimento do PIB, da economia mundial, de uma empresa. Pessoas dizem: “Se não crescer, vai andar para trás” Ficamos preocupados com a notícia de que a China terá um crescimento de apenas (!) 6%. Podemos alegar que crescimento serve ao objetivo de “gerar emprego e distribuir renda”. Mas esse objetivo de forma isolado não contempla um conjunto completo e integrado de aspectos que precisam fazer parte do Objetivo e que respondem à pergunta: “Qual é o objetivo da Economia?”, “Para que ela deve servir?”

A Kate mostra que até nas reuniões do G20, os líderes mundiais mostram sinais que eles também não sabem direito o por que da necessidade de Crescimento.
Ela diz:
Que tipo de crescimento deseja hoje? Angela Merkel sugeriu o “crescimento sustentado”. David Cameron propôs o “crescimento equilibrado”. Barack Obama foi a favor do “crescimento duradouro, em longo prazo”. José Manuel Durão Barroso, da Comissão Europeia, apoiava o “crescimento inteligente, sustentável, inclusivo, resiliente”. O Banco Mundial prometia o “crescimento verde inclusivo”. Outros sabores em oferta? Equitativo, bom, mais verde, de baixo carbono, responsável ou forte. Você̂ pode escolher – contanto que escolha o crescimento.

É para rir ou chorar? Primeiro, chorar, pela falta de visão num ponto tão critico da história humana. E depois rir. Porque quando políticos se sentem obrigados a enfeitar o crescimento do PIB com tantos termos qualificativos para lhe dar legitimidade… evidentemente, queremos mais do que apenas crescimento, mas nossos políticos não conseguem encontrar as palavras para isso e os economistas há muito declinaram de fornecê-las. Então é hora de chorar e de rir, mas, acima de tudo, de falar de novo daquilo que importa.

Qual é o novo que ela propõe? O que deve ser o Objetivo da Economia na visão dela?

Para isso ela desenha um círculo espesso, parecendo um “doughnut” (doughnut significa rosquinha), que representa o espaço entre dois limites que devemos perseguir como objetivo: o limite interno representa o “alicerce social”, as necessidades humanas que minimamente devem ser atendidas, e o limite externo representa “o teto ecológico”, o máximo que a Terra é capaz de absorver.

O “alicerce social” é composto por 12 necessidades: alimentação, saúde, educação, renda e trabalho, paz e justiça, voz política, igualdade social, igualdade de gênero, moradia, rede social, energia e água.

Os dois, alicerce e teto, são inter-relacionados. Ela escreve que
Se nos concentrarmos nessas muitas interconexões ao longo do Donut, fica claro que a prosperidade humana depende da prosperidade do planeta. Produzir alimentos nutritivos e suficientes para todos requer solos saudáveis, ricos em nutrientes, água doce abundante, colheitas biodiversificadas e um clima estável. Assegurar água limpa e segura para beber depende de um ciclo hidrológico que gere chuvas abundantes, em âmbito local e global, de modo a recarregar continuamente os rios e aquíferos da Terra. Dispor de ar puro para respirar significa pôr fim às emissões de partículas tóxicas que asfixiam os pulmões. Gostamos de sentir o calor do Sol nas costas, mas apenas se estivermos protegidos de sua radiação ultravioleta pela camada de ozônio, e apenas se os gases do efeito estufa na atmosfera não o estiverem transformando num catastrófico aquecimento global.

Ela faz um apelo para uma mudança radical no modo de pensar.
Primeiro, ela descreve como sair do Objetivo de Crescimento para adotar o Objetivo de Alicerce social e Teto Ecológico integrados.
Segue a imagem do Objetivo da Economia:

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As outras mudanças do modo de pensar são:
2 – Sair da Análise do Mercado Autônomo, para adotar a Análise da Economia Integrada;
3 – Sair da imagem do homem econômico racional, para adotar a de Seres humanos sociais adaptáveis;
4 – Sair do entendimento do Equilíbrio Dinâmico, para adotar a da Complexidade Dinâmica;
5 – Sair da crença que Crescimento leva a Reequilíbrio, para adotar o conceito Distributivo;
6 – Sair do Crescimento Limpa a natureza, para adotar o conceito da Regeneração;
7 – Sair da crença do Crescimento sem fim, para adotar o Agnóstico referente o Crescimento.

Quem quiser se aprofundar mais nestes aspectos, pode acessar pela internet a diversas palestras dela no TED Talks, YouTube, Wikepédia ou adquirir o livro, com tradução em Português.

A Kate é comparada com o Keynes do século passado, uma pessoa cujo pensamento pode provocar uma mudança radical no pensar econômico e assim contribuir com uma mudança na esfera política e social do mundo.
Para mim fica a pergunta: O que nós podemos fazer para que o mundo econômico possa encontrar um outro fundamento de pensar, que concilia o bem-estar do ser humano e da humanidade com a salvação do planeta? E também: Qual é nosso papel enquanto sócios, gestores de uma empresa, ou também como fornecedores, consumidores e cidadãos para contribuir para mudanças necessárias?

Literatura:
“Economia Donut: Uma alternativa ao crescimento a qualquer custo”, por Kate Raworth; Ed. Zahar

Hermanus J. Meijerink

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